sábado, 25 de agosto de 2012

DA HUMILDADE: O BURRO DE CARGA

Tema da semana
Todo aquele que se eleva será rebaixado
de 20/08/2012 a 26/08/2012

Neio Lúcio



No tempo em que não havia automóveis, na cocheira de famoso palácio real um burro de carga curtia imensa amargura, em vista das pilhérias e remoques dos companheiros de apartamento.

Reparando-lhe o pelo maltratado, as fundas cicatrizes do lombo e a cabeça tristonha e humilde, aproximou-se formoso cavalo árabe, que se fizera detentor de muitos prêmios, e disse, orgulhoso:

- Triste sina a que recebeste! Não Invejas minha posição nas corridas? Sou acariciado por mãos de princesas e elogiado pela palavra dos reis!

- Pudera! - exclamou um potro de fina origem inglesa - como conseguirá um burro entender o brilho das apostas e o gosto da caça?

O infortunado animal recebia os sarcasmos, resignadamente.

Outro soberbo cavalo, de procedência húngara, entrou no assunto e comentou:

- Há dez anos, quando me ausentei de pastagem vizinha, vi este miserável sofrendo rudemente nas mãos de bruto amansador. É tão covarde que não chegava a reagir, nem mesmo com um coice. Não nasceu senão para carga e pancadas. É vergonhoso suportar-lhe a companhia.

Nisto, admirável jumento espanhol acercou-se do grupo, e acentuou sem piedade:

- Lastimo reconhecer neste burro um parente próximo. É animal desonrado, fraco, inútil... Não sabe viver senão sob pesadas disciplinas. Ignora o aprumo da dignidade pessoal e desconhece o amor-próprio. Aceito os deveres que me competem até o justo limite; mas, se me constrangem a ultrapassar as obrigações, recuso-me à obediência, pinoteio e sou capaz de matar.

As observações insultuosas não haviam terminado, quando o rei penetrou o recinto, em companhia do chefe das cavalariças.

- Preciso de um animal para serviço de grande responsabilidade - informou o monarca -, animal dócil e educado, que mereça absoluta confiança.

O empregado perguntou:

Não prefere o árabe, Majestade?

- Não, não - falou o soberano -, é muito altivo e só serve para corridas em festejos oficiais sem maior importância.

- Não quer o potro inglês?

- De modo algum. E’ muito irrequieto e não vai além das extravagâncias da caça.

- Não deseja o húngaro?

- Não, não. É bravio, sem qualquer educação. É apenas um pastor de rebanho.

- O jumento serviria? - insistiu o servidor atencioso.

- De maneira nenhum. É manhoso e não merece confiança.

Decorridos alguns instantes de silêncio, o soberano indagou:
- Onde está o meu burro de carga?

O chefe das cocheiras indicou-o, entre os demais.

O próprio rei puxou-o carinhosamente para fora, mandou ajaezá-lo com as armas resplandecentes de sua Casa e confiou-lhe o filho, ainda criança, para longa viagem.

Assim também acontece na vida. Em todas as ocasiões, temos sempre grande número de amigos, de conhecidos e companheiros, mas somente nos prestam serviços de utilidade real aqueles que já aprenderam a suportar, servir e sofrer, sem cogitar de si mesmos.

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Abriga-te na humildade,
Não busque mundana estima.
O ouro afunda no mar,
A palha fica por cima.
Regueira Costa

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Nunca vejas no vizinho
Defeitos fraquezas, taras...
A ostra mora no lodo
Criando pérolas raras.
Sabino Batista

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Quem não deseja suportar, é incapaz de servir.
André Luiz

Do livro Ideias e Ilustrações. Psicografia de Francisco Cândido Xavier.



sexta-feira, 24 de agosto de 2012

HUMILDADE


Tema da semana
Todo aquele que se eleva será rebaixado”
de 20/08/2012 a 26/08/2012

Aylton Paiva

A humildade é virtude indispensável a quem pretenda ser cristão.

Por isso, a todo momento deparamos, na literatura religiosa, especificamente na oriunda de fonte cristã, a exaltação de tal postulado ético.

Tratando-se de qualidade indeclinável, importante é que se cuide em conceituá-la e, tanto quanto possível, concretizá-la a fim de que o modelo patenteie-se diante dos nossos olhos.

Aqueles que se denominam cristãos tem procurado dar-lhe dimensão e forma.

Assim, decorrente de interpretações baseadas em diferentes pressupostos dos diversos ramos das religiões, que se desdobraram sob a égide do Cristo, a palavra humildade assume multiformes conotações, bem como é explicada por dispares conceitos.

É inclusive, vezes e vezes, confundida com atitudes exteriores e periricas do comportamento humano. Por exemplo: aquele que injustamente é admoestado ou punido, por falta que não cometeu, e cabisbaixo aceita tal situação, sem esboçar mínimo gesto de defesa, é indicado como pessoa profundamente humilde.

Aquele outro se veste, embora tendo recursos econômicos razoáveis, de forma displicente, e é apontado como humilde.

Quem realiza determinado trabalho e, sendo este elogiado pelos observadores, se esquiva através de evasivas, afirmando que é incapaz, que foi mal feito, etc. (embora intimamente reconheça que está realmente bem feito), é revelado como humilde.

Destarte, logicamente analisando tais atitudes, pela Filosofia Espírita, embasada pela ética Cristã, constatamos que tais distorções têm levado a humildade a confundir-se com servilismo, desleixo, exibicionismo disfarçado, etc.

Compreendamos, porém, que humildade é alguma coisa mais profunda, mais intensa que os superficiais comportamentos acima descritos.

A verdadeira humildade, de acordo com o Espiritismo, é a aceitação consciente e plena daquilo que somos. Com as virtudes e defeitos, com as possibilidades e limitações.

Reconheçamos, portanto, que ela é a clara compreensão da Imagem real do "Eu".

O oposto da humildade é, por consequência, o orgulho.

E este é, justamente, a imagem ampliada, distorcida, irreal que a pessoa faz do próprio Ego.

O confronto das duas posições mentais gera conflitos, tensões, complexos, compulsões, que, muitas vezes, face ao desequilíbrio imposto ao psiquismo, abrem as portas à obsessão, subjugação e possessão por entidades desencarnadas.

Portanto, a humildade será aquele estado mental, espiritual, alcançado pelo autoconhecimento, que propicia a visualização da própria imagem pela perspectiva da realidade. E isto permitirá a segurança, a tranquilidade, o otimismo e a fé no processo evolutivo a que todas as pessoas estamos submetidas.

Eis a importância do efetivo estudo da Doutrina Espírita, que fornece subsídios ao conhecimento da vida e de nós mesmos, conhecimento que deveremos possuir para acelerar o processo de crescimento espiritual.

Conclusivamente: ser humilde é reconhecer, serenamente, na vivência espiritual, o que somos, onde estamos e o que nos cumpre fazer e ser para avançar nos rumos da perfeição possível.


Fonte: Revista “O reformador”, Julho/1970. Pg. 164.
Texto extraído do site: Caminhos de Luz.
Sugestão: Acervo digital da revista “O reformador”.